quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Libertação Miofascial – Funciona?

libertacao-miofascial-2 

A libertação miofascial (Myofascial release) é um conceito muito utilizado, tendo-se tornado uma moda no mundo do fitness e bem-estar com a criação de múltiplas técnicas e equipamentos.

Antes de falar sobre estas técnicas e equipamentos, o que é a fáscia?
  • Composta por tecido conjuntivo denso (forte e resistente)
  • Apresenta vascularização pobre
  • Apresenta propriedades contrácteis fracas
O conceito de libertação miofascial parte dos seguintes pressupostos:
  • Existem restrições e/ou adesões na fáscia que precisam de ser libertadas
  • Conseguimos facilmente manipular a fáscia
Quanto mais repetimos uma ideia, mais ela se torna uma realidade.

Pode-se dizer que aconteceu o mesmo neste caso. Será assim tão fácil manipular a fáscia através da força das mãos ou de um equipamento como o foam roller? Se assim fosse, não estaríamos a “libertar a fáscia” nos posteriores da coxa quando estamos sentados? Ou talvez no trapézio quando realizamos um agachamento com barra?

Na verdade, um estudo muito interessante surgiu em 20081 com os autores a delinearem um modelo matemático que permitiu calcular a força necessária para induzir alterações na fáscia. Passo a citar algumas passagens:
Our calculations reveal that the dense tissues of plantar fascia and fascia lata require very large forces—far outside the human physiologic range—to produce even 1% compression and 1% shear. However, softer tissues, such as superficial nasal fascia, deform under strong forces that may be at the upper bounds of physiologic limits.
Ao que parece, para induzir os tais 1% de alteração na fáscia era preciso uma força sobre-humana…
We found that, for plantar fascia, a normal load of 8359 N (852 kg) and a tangential force of 4158 N (424 kg) are needed to produce even 1% compression and 1% shear.
libertacao-miofascialFigura 1 – A verdadeira manipulação da fáscia


Para além da força necessária para induzir alterações mínimas na fáscia, colocam-se ainda outros dois problemas2:
  • É necessário suster o estímulo durante um período significativo (> 2 minutos).
  • Processo de reversibilidade após interrupção do estímulo.
Pelo que podemos observar pelas práticas atuais, é raro observar um terapeuta a trabalhar numa área por mais do que 30 a 120 segundos. Para além deste pormenor, aparentemente existe um processo de reversibilidade após estímulo. Será que faz sentido continuar a suportar cegamente estas técnicas?

Não quero colocar aqui em causa os benefícios reais da massagem e da utilização de outro tipo de equipamentos que sem dúvida existem. No entanto, seria o mesmo que passar a chamar todos os “Pedros” de João. Estar a dar um nome a algo que a evidência não suporta é estar a abrir portas para criação de modas e oportunidades de marketing fantásticas. Que coincidência, porque será que as empresas de rolos e outros “equipamentos miofasciais” têm tido tanto sucesso?

Tomamos como garantido que estes são equipamentos e técnicas de “self-myofascial release” quando na verdade, não existe um único estudo a comprovar alterações na fáscia de forma significativa e duradoura. Aliado às supostas alterações na fáscia, estas técnicas e equipamentos são também apontados como estratégias para aumentar a flexibilidade, performance, fluxo sanguíneo, recuperação muscular e numa notícia de última hora…
… só falta afirmar que é o salvador da fome no mundo e do aquecimento global.

Claramente estes equipamentos e técnicas são sobrevalorizadas devido aos interesses financeiros e de marketing.

Segundo a literatura, quais os seus verdadeiros benefícios? *
  • Aumentos agudos de flexibilidade (< 30 minutos)3
  • Aumentos agudos de tolerância à dor (< 30 minutos)4
  • Facilitação ligeira na recuperação após exercício3
  • Promoção de bem-estar e relaxamento (subjetivo)
* A evidência foi apenas retirada de literatura relacionada com foam rollers e roller massagers devido à sua popularidade atual.

A utilização de um foam roller no aquecimento pode ser muito útil na medida em que permite um aumento de flexibilidade sem perturbações na performance. No entanto, é comum observar que este aparelho tem sido sobrevalorizado na medida em que as pessoas ficam a “rolar” durante 30-40 minutos de seguida e quando chegam ao fim, para além de uma elevada estimulação do sistema parassimpático, provavelmente já perderam os efeitos positivos iniciais. A ideia será sim massajar durante uns segundos (30-60) para obter os benefícios desejados e utilizar de seguida a mobilidade adquirida.

Pode ainda ser interessante utilizar estes equipamentos no trabalho de flexibilidade máxima e no pós-treino como facilitador de recuperação muscular, embora a evidência não suporte totalmente este benefício. No entanto, em atletas de alta competição onde 1% pode fazer a diferença entre o 1º e o 2º lugar, toda a ajuda conta. Para além dos benefícios psicológicos induzidos ao nível do bem-estar.

Conclusões e pontos-chave:

  • Para induzir alterações na fáscia são necessárias forças sobre-humanas e duradouras
  • As técnicas e equipamentos de “auto-libertação miofascial” são sobrevalorizados na medida em que os seus defensores apresentam benefícios que não são suportados por evidência
  • Estas técnicas e equipamentos promovem bem-estar, melhorias agudas de flexibilidade, tolerância à dor e ligeira facilitação na recuperação muscular    


Fonte: Musculação.Net 





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