segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Professor opina: a MP do ensino médio precisa ser melhor discutida

Portal entrevista o Doutor em Educação Física Leandro Mazzei e discute os efeitos a longo prazo que poderão ser ocasionados com a nova medida

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Polêmica e controversa, a MP do ensino médio, que oferece flexibilização do currículo e escola integral para alunos do ensino público, a partir de 2017, avançou para o congresso na última semana. Com um discurso de modernização e foco no encaminhamento do aluno ao mercado de trabalho, o governo encontrou forte resistência de alguns setores da sociedade diretamente ligado às disciplinas que perderam força na reforma: artes e educação física.
 
Contra o texto publicado, oficialmente, pelo governo, o Portal foi buscar a opinião de um acadêmico, doutor em educação física pela USP, Leandro Mazzei, com o objetivo de embasar melhor a opinião dos nossos leitores e de dar espaço para um debate sério e de alto nível.
Confira e participe dessa discussão:
 
Portal – Qual a sua opinião sobre a MP do ensino médio?
Leandro
– Bom, antes de emitir uma opinião, penso que é necessário elucidar um pouco a proposta, pois muito se postou nas redes sociais, mas fiquei com a sensação que pouca gente leu as propostas. A ideia central da medida provisória foi flexibilizar a carga horária e consequentemente as disciplinas do ensino médio. Neste contexto, o propósito da MP 746 de 22/09/16 é que o Ensino Médio tenha maior foco em um bloco de disciplinas comuns e possibilitar aos alunos um caminho mais interessante e condizentes com os interesses de cada um dos mesmos.

Realizando uma opinião agora, penso que algumas ideias são boas e outras nem tanto. O grande o problema é que se colocou essa MP sem as discussões e o aprofundamento sobre as decisões e principalmente em relação às consequências reais da proposta submetida. Interessante citar que esse aprofundamento deve ser feito com as organizações devidas, que representam os docentes deste nível de ensino e também, se possível, aos alunos e pais de alunos.

De certa forma, é muito complexo realizar uma medida como essa, pois nosso país é continental, com, aproximadamente, 5570 municípios, com inúmeras diferenças sociais, culturais e econômicas.

Logo, você possui escolas com boa estrutura física e com recursos humanos bem capacitados, ao mesmo tempo em que existem muitas escolas sem salas de aula e com professores sem formação. Além disso, a grande questão para uma melhora no ensino médio, não possui relação com a quantidade de carga horária ou disciplinas. O que deve ser realmente discutido são os conteúdos.

Talvez, ao se propor uma flexibilização e a possibilidade de aprofundamento em algumas áreas, se pensou na hipótese de maior motivação por parte dos alunos em algumas disciplinas. Mas é muita suposição que isso afetasse os conteúdos e a melhora da aprendizagem nas diferentes disciplinas.

Outro ponto é que a possibilidade de aprofundamento torna o ensino médio mais tecnicista e profissionalizante, cerceando uma formação mais crítica e abrangente do aluno. Por outro lado, essa característica de ensino já deveria ser construída no ensino fundamental, o ensino médio concluiria o período de formação básica do cidadão.
 
PortalQual o impacto que você que isso poderá trazer para a educação física a longo prazo?
Leandro – Sobre a não obrigatoriedade da Educação Física e das Artes, elas não saem do currículo, apenas serão optativas em uma grade horária flexibilizada. Na prática, escolas com boa estrutura irão oferecer um ensino integral, que provavelmente abrangeria essas disciplinas. Enquanto que escolas com menos estrutura, irão oferecer o mínimo, ou seja, uma grade horária sem essas matérias.

Na realidade atual, a Educação Física no ensino médio já é colocada como segundo plano, já que o foco ou é uma formação para o mercado, no sentido de ter esse diploma, ou uma preparação para o vestibular. Ou seja, na realidade, a Educação Física quase é uma disciplina optativa. Nos anos recentes, um pouco se mudou devido ao conteúdo cobrado no ENEM, mas, de fato, ela não é uma disciplina valorizada no Ensino Médio atual. Por exemplo, para quem faz o curso no período noturno, ela não é obrigatória. E se pensarmos que Seis em dez escolas públicas do Brasil não têm quadras  
(http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/seis-em-dez-escolas-publicas-do-brasil-nao-tem-quadras-para-atividade-fisica-19871349) imagino como é o processo de ensino na maioria das escolas (públicas) do Brasil.

Portanto, e novamente, antes de se discutir a não obrigatoriedade da Educação Física no ensino médio, eu discutiria qualidade das estruturas das escolas, pois atualmente, ela não oferece condições mínimas para aulas desta disciplina na maioria dos casos. Falando sobre as consequências, isso afetaria mais ainda o interesse pela docência e licenciatura em educação física por parte de alunos do curso. Além de afetar talvez o mercado com a possível demissões de professores desta área. Sobre a saúde dos alunos da faixa etária do ensino médio, boa parte deles deve procurar atividade física fora da escola.

O conteúdo das aulas deveria buscar por mais interesses desses jovens, motivá-los a participarem das aulas, fato que não acontece, de uma forma geral, neste momento. Penso que a preocupação das aulas de educação física deveria ser maior no ensino fundamental. Se argumentou muito que a MP não condiz com o legado de um país que sediou os jogos Olímpicos.

Mas cabe lembrar que o esporte é apenas uma ferramenta das aulas de educação física, não é a sua prioridade. Se as escolas tivessem melhor estrutura, poderia ser praticado esporte em horário pós ou pré-aula, como já acontece e é procurado por alunos interessados, desde que exista também professores motivados nessa proposta.

A educação física no ensino médio pode colaborar com a queda do sedentarismo da população brasileira, mas ela fará parte de um conjunto de ações, não será a única solução. Com relação ao esporte, hoje, a educação física escolar dificilmente aumentará a participação esportiva da população brasileira. Quem sabe no futuro e com outro formato de ensino e também sistema esportivo. Novamente, um ponto sobre a MP é que foram emitidas muitas opiniões, superficiais e sem o aprofundamento devido. Assim como a própria MP, diga-se de passagem.

Um outro fato extremamente importante que deve ser considerado por qualquer plano na Educação, é a valorização do profissional. Sem medidas que envolvam essa questão, não há MP ou reforma que dê certo ou com muito futuro. Essa valorização não é só financeira, mas social e cultural, principalmente no contexto da educação física no meio da educação e da sociedade. É um fator complexo de se mudar, mas não impossível, além de existir inúmeros estudos que estudam e propõem soluções para o tema.


 


Fonte: Educação Física

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