quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quanta proteína podemos absorver?

 As proteínas são biomoléculas extremamente interessantes. A sua importância encontra-se bem patente na raiz etimológica da palavra, oriunda do grego proteos significando “primário” ou “de primeira ordem”. 



A sua distribuição no organismo é de ≈40 % no músculo-esquelético, ≈25 % nos órgãos estando o restante distribuído entre a pele e o sangue (1). São inúmeras as funções destas moléculas sendo no entanto mais importantes do ponto de vista estrutural e funcional.

As proteínas podem ser enzimas (catalisadores químicos), canais membranares, proteínas de transporte, hormonas, colagénio e até representar uma pequena parte da membrana celular (glicoproteínas), entre outras (2,3).

São também proteínas que constituem os filamentos contrateis miosina e actina, sendo estas uma parte maioritária da unidade contráctil do músculo, o sarcómero (4,5).

Estas moléculas variam de pequenos péptidos a cadeias de monómeros extremamente complexas, podendo chegar a centenas de milhares de unidades de massa (Da) (2).

Existe por vezes a discussão se determinada estrutura proteica é um péptido ou uma proteína. Convencionou-se que cadeias de aminoácidos com massa atómica até 10 000 Da são péptidos e que acima deste valor são consideradas proteínas.
.

Os aminoácidos que constituem as proteínas são todos codificados pelo nosso código genético. Assim consideram-se 20 aminoácidos como proteogénicos (formam proteínas) podendo considerar-se eventualmente 21 já que a selenocisteína possui também um codão específico (ela é sintetizada a partir do codão stop UGA).

Percebem agora o meu espanto quando oiço pessoas a dizer que as proteínas não são importantes?
No que diz respeito à absorção, as proteínas são absorvidas sob a forma de aminoácidos livres, di e tripéptidos por transportadores específicos (esqueçam as vias paracelulares como é caso de algumas proteínas, para não complicar a coisa).

A grande maioria dos aminoácidos livres, neutros e com carga depende de transportadores dependentes de sódio (8,9), existindo ainda alguns transportadores dependentes de cloro (10). Existem também transportadores para di e tripéptidos conhecidos por PEPT (a isoforma 1 é a presente no intestino) .

Mas afinal quanta proteína podemos absorver?

A resposta parece ser definitivamente muita. Assumindo doses de 10-50g de proteína alguns trabalhos reportam valores entre 91 e 94,8% (com uma pequenina vantagem para as proteínas de origem animal).

É preciso ter sempre presente o facto do próprio intestino delgado (onde se absorve 95% da proteína) também reter parte dos aminoácidos das proteínas para uso próprio (já falei disto algumas vezes) .

São exemplos disto a glutamina, glutamato, BCAA’s e alguns aminoácidos sulfurados como a cisteína, entre outros (16).

De acordo com a revisão de Bilsborough e Mann a taxa média de absorção das proteínas varia entre 1,3 e 10 g/h (17), então será este o limite de proteína por refeição?

Se ingerir 50 g de proteína, 10 g são absorvidos e os restantes seguem para o cólon? Calma… Estudos in vitro são uma coisa, in vivo outras coisas acontecem.

As proteínas influenciam naturalmente a função hormonal, e neste respeito em concreto a colecistocinina (CCK). Ao aumentarem a produção de CCK, as proteínas tornam o processo digestivo mais lento o que permite uma absorção mais continuada da proteína (18–20).

Alguns estudos experimentais em humanos confirmam de certa forma esta hipótese, sugerindo até taxas de absorção bem mais elevadas (atenção que alguns trabalhos foram feitos em jejum intermitente).

O problema é que muitas vezes pergunta-se quanta proteína consigo absorver por refeição e na realidade o que se está a querer perguntar é quanta proteína o meu corpo efectivamente usa. Esta última pergunta é muito mais complexa e dependerá de inúmeros factores (enzimáticos, hormonais etc.) e também do próprio contexto metabólico.

Por vezes preocupamo-nos em obter as respostas certas não fazendo as perguntas certas: Quanto do azoto ingerido vai ser efectivamente incorporado em proteínas e quanto apenas irá contribuir para a síntese de ureia? Tenho de dar a velha resposta muito comum em ciência: Depende… 



Fonte: Musculação.Net


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