sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Suplementos – Entrevista a Filipe Teixeira


Poderia começar por falar um pouco de si? Que idade tem? Como foi o seu percurso académico até hoje? O que faz em termos profissionais?

O meu nome é Filipe Teixeira, tenho 36 anos. Na minha família existe uma ligeira inclinação pelas ciências fundamentais como a Química e a Matemática, isso fez com que o meu trajecto passasse pela Bioquímica e Ciências Biomédicas e só mais recentemente pelas Ciências Da Nutrição.

Actualmente sou doutorando em Fisiologia do Exercício. Uma boa base em ciências fundamentais parece-me essencial para um melhor conhecimento e compreensão das Ciências da Nutrição.

Em termos profissionais sou Director Técnico da Body Temple, Lda e da Proviant Nutrition Research Lda. Sou alguém que trabalha directamente para a indústria dos suplementos, que isto fique bem claro. Durante quase 4 anos fui também Director de Nutrição do Tudor Bompa Institute International.

Em termos académicos encontro-me neste momento a trabalhar em 3 artigos, actualmente em processo de submissão, relacionados com suplementos alimentares.

Até que ponto considera os suplementos importantes para os praticantes de musculação e de outros desportos?
A importância é relativa. Os suplementos devem, como o próprio nome indica, suplementar. Alguns suplementos parecem ter resultados mais interessantes em desportos de força e potência como a creatina, outros em desportos de alta intensidade, mais virados para o endurance muscular, como a beta-alanina e o bicarbonato de sódio ou mesmo a cafeína.

Um suplemento só deve ser introduzido após a dieta e o treino terem sido optimizados. Suplementos não resolvem mau treino ou má dieta.

Quais diria que são os suplementos mais eficientes para quem deseja obter aumento da massa muscular?
Vários suplementos podem auxiliar, no entanto se tivesse que enumerar 3 suplementos com efeitos positivos na hipertrofia muscular diria o soro de leite, creatina e o HMB (β-hidroxi β-metilbutirato) provavelmente na sua forma livre (free acid).

O HMB parece funcionar melhor em atletas iniciantes sobretudo na prevenção do catabolismo e aumento da recuperação muscular.

Outros suplementos apresentam-se promissores no entanto é ainda muito cedo para podermos recomendá-los, alguns exemplos são o ácido fosfatídico ou a α-Glicerilfosforilcolina (α-GPC).

Quais são os suplementos mais eficientes para quem deseja perder gordura? Fazem realmente a diferença?
Na perda de peso definitivamente não existem suplementos milagrosos. Os únicos suplementos com algum efeito comprovado são a cafeína e o chá verde. Existem algumas “pistas” em relação à Garcinia cambodgia, mas os estudos apresentam resultados inconsistentes (1–3).

Depois existem outras compostos como a Ioimbina ou o 7-ceto DHEA, no entanto em Portugal tanto quanto sei, a DGAV não permite a sua comercialização enquanto suplementos alimentares.

Suplementação com bicarbonato de sódio… É fácil a sua implementação no regime alimentar e de suplementação de um atleta? Vale a pena?
O bicarbonato de sódio é particularmente interessante no controlo da acidez. Alguns trabalhos mostram efeito positivo na redução da acidez sanguínea (diminuição da concentração de H+) (4–7), aumento da capacidade anaeróbica (8,9) e mesmo aeróbica (10,11).

Um dos problemas prende-se com a ingestão de 200-300 mg/kg.dia-1, 30 a 60 min antes do treino, uma vez que em alguns atletas causa transtornos gastrointestinais.

Uma alternativa a esta estratégia poderá passar por suplementar apenas 200 mg/kg.dia-1 antes do treino/jogo ou então fazer uma ingestão com as refeições de ≈500 mg/kg.dia-1 (em 3 refeições, por exemplo 150 mg/kg por refeição). Parece-me pelo que conheço da literatura que o bicarbonato de sódio beneficia sobretudo actividades de alta intensidade até 60 s.

Suplementos para as articulações como a glucosamina e condroitina, são importantes para atletas como jogadores de futebol, basquetebol, etc? Ajudam realmente na manutenção da saúde articular?
O sulfato de glucosamina mostra alguns efeitos modestos na redução da dor (12–15) e sintomas de osteoartrite (16–19). No entanto salta-me à vista o facto de estas intervenções serem muito longas, durando vários meses ou anos e os resultados serem relativamente modestos.

Em relação à condroitina acredita-se que possa ajudar na diminuição do edema no entanto a literatura não aparenta confirmar essa hipótese (20). Alguns estudos mostram efeito da condroitina mas sempre em combinação com a glucosamina (14,21,22).

Eu diria que a Boswellia serrata apresenta-se muito mais interessante na saúde articular do que a glucosamina e a condroitina apesar de apresentar menos trabalhos científicos (23–26).

Porque motivo nem todos respondem à suplementação com monohidrato de creatina?
Entre as várias explicações possíveis pensa-se que um menor número de fibras tipo II possa explicar a menor resposta à suplementação com creatina (27).

Outras hipóteses prendem-se com os níveis de creatina e fosfocreatina pré-carga assim como uma menor dimensão da área transversal da fibra muscular (27).

Na sua opinião, qual é o tipo de creatina mais eficiente?
A creatina monohidratada assim como os seus sais piruvato e citrato aparentam ter melhor concentração plasmática. A creatina monohidratada é de longe a mais estudada e a que recomendo (28). Acrescentaria a forma patenteada Creapure® pelo seu elevado grau de pureza.


Relativamente aos suplementos de proteína do tipo marca branca, considera ser realmente possível oferecer proteína de qualidade, com as concentrações mencionadas, ao preço a que essas marcas vendem?
Pelos preços que conheço acho difícil, no entanto não sou especialista na área financeira ou económica. As concentrações mencionadas são aferidas usando métodos clássicos e acreditados como o Kjeldahl ou Dumas que extrapolam a concentração proteica a partir do teor de azoto (N). Estes métodos têm limitações, já que outras fontes de azoto (sobretudo orgânico) podem sobrestimar a concentração proteica. É algo que já discuti no Science Driven Nutrition Journal em algum detalhe.

O meu trabalho no ano transacto foi precisamente desenvolver um método que permita detectar aminoácidos livres no soro de leite de forma colorimétrica aferindo a sua concentração por espectrofotometria. No entanto o Nitrogen Spiking é muito mais do que adicionar aminoácidos baratos a proteínas mais caras como o soro de leite. A adição de fontes proteicas mais baratas como a soja ou o trigo também defraudam o consumidor já que o mesmo paga por soro de leite.

Não estou com isto a dizer que as marcas brancas praticam Nitrogen Spiking. No trabalho que fizemos e que está neste momento a ser submetido analisamos 28 amostras de soro de leite comercial com este novo método analítico.

As marcas mais adulteradas não eram oriundas da europa. O que quis sublinhar com esta questão das concentrações mencionadas rótulos e Nitrogen Spiking é que os métodos analíticos usados têm limitações.

São vendidos suplementos contrafeitos ou adulterados em Portugal? É uma prática vulgar ou nem por isso?
Suplementos contrafeitos têm surgido por toda a europa mas sobretudo na europa de leste. Já tivemos algumas marcas nossas com esse problema. A adulteração por contaminação pode ocorrer de forma deliberada ou acidental.

Em suplementos fabricados fora da europa parece-me que a contaminação deliberada é mais comum. Dentro da europa as adulterações por contaminação são geralmente de forma acidental, pelo menos assim parece tendo em conta as concentrações detectadas frequentemente em ppm ou ppb.

Muitas vezes ocorrem ou por contaminação cruzada inerente ao equipamento usado ou então pela aquisição de matéria-prima contaminada no fornecedor.

Refeições pré e/ou pós-treino, são realmente importantes? Fazem realmente a diferença?
Eu de uma forma geral aconselho uma refeição até 2h antes do treino assim como uma refeição no pós-treino. Podíamos entrar na discussão do Nutrient Timing mas penso que isso daria uma entrevista de várias horas. A questão já foi abordada por Schoenfeld et al. num par de estudos.

Eu diria que usar a estratégia do Nutrient Timing descrita por Ivy e Portman não é prejudicial para a performance, recuperação ou adaptação.

Será que existe uma janela anabólica de 30-45 min pós-treino? As meta-análises dos autores mencionados parecem dizer que não, ou que pelo menos essa permeabilidade muscular aos nutrientes é mais longa, provavelmente até 2h pós-treino. Quem parece beneficiar com o Nutrient Timing são os atletas profissionais mais do que os recreativos.

Vejo muita gente no ginásio entrar em paranóia por não tomar o batido de proteína naqueles 30-45 min pós-treino… Tenho dúvidas que essas inquietações se justifiquem. Na minha opinião quem mais beneficia do Nutrient Timing são os atletas profissionais e esses muitas vezes nem sabem o que este significa.

Ingestão de caseína antes de deitar. Funciona? Vale realmente vale a pena ou podemos optar por outra fonte de proteína de digestão lenta, mais económica?
Um trabalho recente do laboratório do Prof. Luc van Loon (29) mostra efeitos positivos na síntese proteica muscular, no entanto este estudo tem uma limitação a meu ver, já que a ingestão proteica diária não foi igualada entre os grupos. Um grupo ingeriu 1,3 g/kg de peso corporal vs 1,9 g/kg de peso corporal. Estas diferenças podem ter enviesado os resultados a favor do grupo que ingeriu caseína antes de dormir. Apesar de alguns estudos anteriores já terem estudado esta questão, prefiro aguardar por mais estudos antes de ter uma opinião mais definitiva.

Em relação a fontes alimentares há quem prefira ingerir queijos (queijo fresco etc.) são também uma fonte de caseína micelar, como é óbvio.

Em relação aos suplementos de caseína deixo um alerta aos consumidores, optem por suplementos que contenham como ingrediente principal caseína micelar e não caseinato de cálcio. O último tem uma absorção rápida e não lenta como se espera da caseína micelar. A indústria usa o caseinato porque é mais barato, no entanto o mesmo apenas representa uma fracção da caseína micelar.

A dieta de um atleta deve ser rica em hidratos de carbono?
Pergunta complexa, aqui dependerá do tipo de desporto envolvido e do que se considera “rica em hidratos de carbono”. Cada caso é um caso, a dieta deverá ser personalizada fugindo ao template do “one size fits all”. O futuro da Nutrição passa pela sua personalização, muito provavelmente apoiada pelo crescimento de áreas como a Nutrigenómica, Nutrigenética e Proteómica. Esta é a minha opinião pessoal obviamente.

O Vitargo é um suplemento relevante para praticantes de musculação? E para os atletas de resistência como ciclistas, etc?
De uma forma geral a suplementação com hidratos de carbono não é necessária em actividades inferiores a 1h. No entanto esta é uma recomendação genérica, assim o uso deste tipo de suplemento dependerá de vários factores como intensidade, volume do treino etc. Em desportos de endurance fará mais sentido a suplementação com hidratos de carbono de elevada taxa de oxidação. 



Fonte: Musculação.Net

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