segunda-feira, 20 de julho de 2015

Os perigos dos esteróides anabolizantes


É inegável que a utilização de esteróides anabolizantes faz parte dos hábitos de uma fatia significativa de praticantes de vários desportos, incluindo desportos de ginásio como o halterofilismo, powerlifting e musculação.

A atração por este tipo de compostos é fácil de explicar; proporcionam uma forma de obter resultados mais rápidos e mais expressivos do que aqueles que é possível obter de forma natural, mesmo quando aspetos importantes como a nutrição, sono e treino estão otimizados ao máximo.

No entanto, e tal como acontece com a grande maioria dos fármacos, a utilização de esteroides anabolizantes pode ter repercussões negativas na saúde, especialmente aquando da toma de grandes quantidades, durante períodos de tempo prolongados e sem o acompanhamento de um médico.

O que são esteroides anabolizantes?

Basicamente, são hormonas, como a testosterona e o DHT e/ou compostos sintéticos derivados dessas duas hormonas. Destacam-se de outras hormonas porque promovem um aumento notório do tecido muscular esquelético (efeito anabólico) e o desenvolvimento das características sexuais típicas do sexo masculino (efeitos androgénicos).

Na medicina, são usados no tratamento de condições como o hipogonadismo, na qual o organismo não produz a quantidade suficiente de testosterona, para reverter a perda de tecido muscular derivada de problemas de saúde como a saúde como a SIDA, no tratamento de pacientes que fazem diálise e ainda no tratamento da doença pulmonar obstrutiva crônica.

Ao longo deste artigo irei referir-me ao uso de esteróides anabolizantes por desportistas, que geralmente utilizam doses elevadas, e não ao seu uso no contexto do tratamento de problemas de saúde, que geralmente implica doses baixas-moderadas. Devo ainda notar que, muitos suplementos “pró-hormonais” encontram-se na mesma categoria dos esteróides anabolizantes.

Efeitos secundários dos esteróides anabolizantes

Para além de um aumento mais ou menos pronunciado da força e da massa muscular, os esteróides anabolizantes também têm efeitos negativos para a saúde, que podem variar imenso de indivíduo para indivíduo e que tendem a ser mais pronunciados com doses mais elevadas.

Estudos observacionais sugerem que a maioria dos utilizadores de esteróides anabolizantes sofrem de efeito secundário, incluindo acne (40–54%), atrofia testicular (40–51%), ginecomastia (10–34%), estrias cutâneas (34%) e dores nos locais onde foi aplicada a injecção (36%).

Deve ser notado que são os indivíduos mais jovens e as mulheres que obtêm resultados mais dramáticos, em termos de aumento da força e hipertrofia muscular, mas são também, ao mesmo tempo, aqueles que têm maiores probabilidades de sofrer efeitos secundários indesejáveis, sendo que vários deles podem ser permanentes.

Hipogonadismo

Uma das consequências da introdução de esteróides anabolizantes no organismo é a supressão do eixo hipotálamo-hipófise-testículo, o que se traduz numa diminuição, mais ou menos pronunciada da produção natural de testosterona.

Após a cessação da administração de esteróides anabolizantes, os seus consumidores passam a sofrer de hipogonadismo, sendo que demora várias semanas, ou meses, até que os níveis endógenos de testosterona regressem aos seus níveis normais.

Em alguns casos, os indivíduos podem sofrer de hipogonadismo durante mais de um ano após terem cessado a administração de esteróides .

Acne

A acne é um dos efeitos secundários mais comuns associados à administração de esteróides anabolizantes. Um estudo verificou que 43% dos utilizadores sofreram de acne devido ao uso de esteróides.

A literatura científica atual sugere que os esteróides estimulam as glândulas sebáceas a produzir mais óleo. Esse aumento da acne costuma ser mais evidente na face, nas costas e no peito.

Ginecomastia

A ginecomastia é um efeito indesejado que está associado ao uso de esteróides anabolizantes. Trata-se de um aumento do tecido mamário e também da sua sensibilidade, nos indivíduos.do sexo masculino. Isto ocorre principalmente devido ao aumento dos níveis de estrogénio, que por sua vez derivam da conversão de testosterona em estrogénio pela enzima aromatase.

Os elementos do sexo masculino que usam doses elevadas de esteróides, podem ter níveis de estrogénio no sangue semelhantes aos que as mulheres têm durante um ciclo menstrual normal. Isto, no homem, pode pode provocar dores no peito e muitas vezes à ginecomastia, irreversível.

A literatura indica-nos que cerca de 37% dos utilizadores de esteróides sofrem desta condição e geralmente é necessária a realização de uma cirurgia cosmética para corrigir o problema.

Calvice

Os andrógenos também desempenham um papel importante na regulação do crescimento capilar e podem potenciar a calvice. Este efeito secundário não ocorre em todos os indivíduos, sendo mais prevalente naqueles que têm predisposição genética para a calvice.

Infertilidade

Outros efeito secundários associados ao uso de esteróides anabolizantes incluem a atrofia testicular e a diminuição de esperma. Isso acontece devido à introdução exógena de androgénos, que provoca uma diminuição marcada da produção endógena.
A concentração de esperma e o número de espermatozóides presentes no líquido ejaculado poderá ser reduzida ou até mesmo eliminada após 7 semanas de administração, o que aumenta imenso o risco de infertilidade.

Problemas hepáticos

Alguns esteróides anabolizantes podem ser ingeridos na forma oral. Desse grupo, a maioria são modificados (é-lhes adicionado um grupo alquila) de forma a tornarem-se mais resistentes à inactivação pelo fígado.

Verificou-se que a ingestão desse tipo de esteróides anabolizantes é tóxica para o fígado, sobretudo em doses elevadas e pode provocar problemas sérios de saúde, tais como peliose hepática, adenomas e colestase (que origina icterícia).

Também provoca maiores alterações (negativas) ao nível do perfil lipídico no sangue, em comparação com os esteróides anabolizantes injectáveis.

Alterações do perfil lipídico

O uso de esteróides anabolizantes provoca um aumento dos níveis da lipoproteína de baixa densidade (LDL), também conhecido por “colesterol mau”, e uma redução dos níveis de lipotroteína de alta densidade (HDL ou “colesterol bom”) e ainda uma redução significativa da apoprotein A1, a principal proteína que compõe o HDL.

Como exemplo, verificou-se que a administração de 6 mg/dia de stanozolol, durante 6 semanas, diminui em 33% os níveis de HDL.

Para além disso, os uso de anabolizantes também aumenta de forma significativa os níveis de proteína C-reactiva, uma proteína com propriedades inflamatórias e está associado a uma maior propensão para desenvolver uma condição denominada doença arterial periférica.

Problemas cardiovasculares

O uso de esteróides anabolizantes está associado a vários problemas cardiovasculares, tais como hipertensão, ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. Isso deve-se, em parte, às alterações dos níveis das lipoproteínas que transportam o colesterol no sangue.

Níveis elevados de LDL e baixos de HDL aumentam o risco de aterosclerose. Para além disso, os esteróides promovem a coagulação do sangue devido a estimularem o aumento do número de plaquetas e a sua agregação.

Também podem provocar hipertrofia do miocárdio, o que também aumenta o risco de arritmias, morte súbita, hipertensão sistólica e diastólica e ainda infarto do miocárdio. Alguns investigadores também sugerem que os esteróides anabolizantes são diretamente tóxicos para o coração.

Para além disso, o uso de esteróides anabolizantes também implica um aumento risco de hipertrofia do coração que excede a hipertrofia aquela que ocorre normalmente durante o aumento do peso corporal.
Infelizmente, efeitos negativos como a aterosclerose e cardiomiopatia parecem ser irreversíveis. Como exemplo, verificou-se que, fisiculturistas examinados muitos anos após a sua última exposição a esteróides anabolizantes, ainda exibiam disfunção do miocárdio.

Enfraquecimento e ruptura dos tendões

Foi sugerido que o uso de esteróides aumento o risco de rupturas dos tendões nos atletas. Estudos realizados em ratos também verificaram que os esteróides podem levar à diminuição da síntese de colagénio, à degeneração do colagénio e desta forma conduzir a uma diminuição da resistência à tração.

Também se verificou que as adaptações esqueléticas, tais como o aumento da força e da massa muscular, ocorrem de forma mais rápida do que as adaptações do tecido conjuntivo. Isto poderá aumentar o risco de lesões nos tendões quando ocorre um aumento demasiado rápido da intensidade e do volume de treino.

Alterações psiquiátricas

Os esteróides anabolizantes induzem efeitos psiquiátricos notórios nos indivíduos que usam quantidades excessivas (mais de 1000 mg/semana). Estes incluem: irritabilidade, agressão, euforia, ideias grandiosas, hiperatividade e comportamentos perigosos.

Aumento do risco de morte

O uso de esteróides parece ser um factor de risco independente para a morbilidade cardiovascular e morte prematura. Num estudo que envolver powerlifters finlandeses, os investigadores examinaram 62 atletas que atingiram o topo 5 em várias categorias de peso entre os anos 1977 e 1982.
Esses investigadores reportaram que durante os 12 anos de acompanhamento, a taxa de mortalidade para os powerlifters foi de 12,1% em comparação com 3,1% na população de controlo. 

O que acontece quando se cessa o seu uso?

Um estudo no qual participaram 49 atletas de halterofilismo, verificou-se que 84% deles sofreram vários efeitos negativos em virtude da abstinência, incluindo fadiga (52%), depressão (43%), ansiedade (41%), perda de apetite ou anorexia (24%), insónias (20%), perda de apetite sexual (20%), dores de cabeça (20%) e ainda baixa auto-estima, dificuldades de concentração, apatia, dores musculares e articulares.

Para além disso, também foram observados sinais de dependência física e/ou psicológica. Como exemplo, um estudo no qual participaram 49 atletas de força com uma idade média de 24 ano, conclui que 28 deles (57%) eram dependentes dos esteróides anabolizantes.

Efeitos secundários nas mulheres

Os efeitos secundários observados nas mulheres podem ser bastante diferentes dos que se verificam nos homens e incluem o desenvolvimento de características masculinas, tais como: diminuição da gordura corporal e o tamanho dos seios, crescimento excessivo do pelo corporal, perda de cabelo irreversível (calvice), engrossamento da voz e hipertrofia do clitóris, sendo que algumas dessas alterações podem ser irreversíveis.

Também podem ocorrer alterações menstruais, acne, aumento do risco de problemas cardiovasculares, etc.

Conclusão

Tem vindo a acumular-se evidência científica que indica, de forma bastante clara, que a utilização de esteróides anabolizantes implica vários riscos para a saúde, principalmente um maior risco de vir a sofrer de problemas ao nível da saúde cardiovascular.

Esta não é uma lista exaustiva dos problemas de saúde que poderão advir do uso de esteróides anabolizantes. Para além daqueles que indicamos acima, temos ainda que referir o risco de infeção que está associado à aplicação de esteróides por via injectável, que é bastante real devido ao fato da maior parte dos esteróides anabolizantes usados serem provenientes do mercado negro.

Se valoriza a sua saúde, então deverá, sempre que possível, evitar o uso de fármacos que não lhe foram prescritos por um médico para a o tratamento de um problema legítimo de saúde.

Recorde também que é perfeitamente possível obter excelentes resultados, em termos de melhoria da composição corporal, com um plano de treino, programa alimentar e estilo de vida adequado.

Em vez de gastar o seu dinheiro na aquisição de anabolizantes, cujos efeitos no aumento da força e massa muscular são sobretudo temporários, faria muito melhor em investir em acompanhamento personalizado ao nível do treino e dieta, recorrendo a um nutricionista e a um personal trainer. 


Fonte: Musculação.Net


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